domingo, 18 de março de 2012

LIBERDADE, AINDA QUE CATIVA



(crônica no Estado de Minas/Correio Braziliense-18.03.2012)
A ARARA APAIXONADA
Affonso Romano de Sant’Anna
...

(COLABORAÇÃO DE HELÔ DE BELLO BARROS)

Procura-me uma jornalista para saber de minhas reações diante da seguinte estória real: uma arara Canindé, todos os dias, sai da Floresta da Tijuca, lugar onde vive, e há uns 15 anos, vôa uns cinco quilômetros, para visitar outras ararinhas que estão presas nas gaiolas do zoológico. Ela chega lá, pousa, fica um tempão conversando com suas iguais (com uma de preferência) e depois volta para sua morada lá na floresta.
Há a suspeita de que ela esteja apaixonada; que atrás das grades existe alguém que roubou o coraçãozinho da pequena ave. Surgem especulações. É macho ou fêmea? E certas aves o sexo é tão velado, que só o exame de sangue pode revelar. Já foram pedir ao veterinário que solte logo todas as ararinhas. Ele explica que não pode fazer isto, pois embora pareça carcereiro, é o guardião delas, é apenas um funcionário dessa cadeia de aves. Cadeia,vejam, até no duplo sentido: não só da gaiola onde estão, mas por estar zelando pela “cadeia”genética, pela sobrevivência da espécie, posto que a ararinha é uma ave em extinção.
No Google, como sempre, encontro filmes sob ararinhas de todas as espécies e até cenas comoventes de como elas saem do ovo. É só ver, e chorar. Em mim, isto suscitou várias coisas. Primeiro me lembrei de um livro que narrava como as mais diferentes espécies animais fazem amor. Hoje a gente pode ver isto nesses canais de TV tipo “Animal Planet”. É ver, e se emocionar diante do mistério da reprodução, da vida caçando a vida, a vida casando com a vida.

Vocês se lembram que naquele filme com o Richard Geer, o cão continuava indo todos os dias à estação esperar por seu dono, apesar de o dono ja ter morrido? Me contaram de um cemitério onde há muitos cães vagando. Eles mudaram para o cemitério para ficar com os donos que morreram. Bom, da fidelidade canina, já sabíamos.
Mas outro, na TV dia vi uma coisa ao contrário: um indivíduo que foi viver com os lobos: aprendeu o código deles e com eles disputa a carne da caça. Além dessas tem ainda várias estórias e filmes, como da menina e do pai que ensinaram os gansos a voar e os guiaram em ultraleve para um lugar de migração. Outro dia, lá em São Pedro de Atacana, no Chile, vi os flamingos chegando, se acasalando e indo embora.
E as ararinhas?
A jornalista me pergunta, o que um poeta acha dessa estória. Ponho-me a pensar nessa coisa humana e animal que é a liberdade e a prisão amorosa. O que essa ararinha está nos sugerindo? Então, anoto:

Liberta-me
de minha liberdade
diz a arara Canindé
ao seu amado
preso
na gaiola do zoológico.

Aprisiona-me contigo
pois enclausurada
ao teu lado
enfim
-serei livre.

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