
VEJAM QUE PRECIOSIDADE,DE UM ESCRITOR PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO.
O BRINCADOR
Álvaro Magalhães
Quando for grande, não quero ser médico,
engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite,
seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite,
seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber:
não vou para a escola aprender a ser um médico,
um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar
e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar,
como brinca um brincador,
muito mais o que sonhar,
como sonha um sonhador,
e também que imaginar,
como imagina um imaginador...
A mãe diz que não pode ser,
que não é profissão de gente crescida.
E depois acrescenta, a suspirar:
"é assim a vida".
Custa tanto a acreditar.
Pessoas que são capazes,
que um dia também foram raparigas e rapazes,
mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim.
Quando for grande, quero ser brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar,
até a morte vir bater à minha porta.
Depois também, sardanisca verde
que continua a rabiar mesmo depois de morta.
Na minha sepultura, vão escrever:
"Aqui jaz um brincador.
Era um homem simples e dedicado, muito dado,
que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com… as palavras.
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