quarta-feira, 21 de agosto de 2013

UM POUCO DE POESIA


Manoel de Barros:

DESPALAVRA

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da
despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades
de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que os poetas podem humanizar
as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo
com as suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes,
podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender
o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,
por eflúvios, por afeto.

in Ensaios Fotográficos, ed. Record

sábado, 3 de agosto de 2013

O TEMPO E CORTELLA


O Tempo e nós.

Conversa na frente do elevador (cujo botão de chamada era seguidamente apertado pela mesma pessoa): “Olha, eu tenho um livro pra você ler que é bom demais”! Resposta do outro, preocupado: “É grande”?

Pouco depois, outras pessoas ali mesmo, também apertando o botão com sofreguidão, rola outra conversa: “Descobri um curso para você fazer que é magnífico”! Resposta, com ar franzido: ...“Demora”?

Não tenho tempo! Esse é quase um brado recorrente. Ora, tempo é questão de prioridade; se digo que não tenho tempo para algo, estou dizendo que aquilo não é prioridade para mim.

Por isso, a questão central não é saber se tenho ou não tempo, mas, isso sim, quais são as minhas prioridades ao viver. Ficar idoso é ter bastante idade e, portanto, avolumar mais tempos; já o envelhecimento vem com vigor quando desistimos de usar o tempo para a fruição, a partilha, o crescimento, e a inovação de si mesma e de si mesmo.

A velhice é uma sensação de que o tempo é algo a ser aguardado na conclusão (o tempo passa…), em vez de usado para reinvenção (vou achar um tempo para isso)…

A velhice é, antes de mais nada, uma desistência.

Em 1924 o estupendo estudioso da cultura brasileira, nosso maior pensador sobre Folclore, o potiguar Câmara Cascudo, publicou a obra “Histórias que o tempo leva”; foi seu segundo livro de uma série de dezenas e dezenas que produziu em 88 anos de vida. Nascido em Natal em 1898 (há pouco mais de 180 quilômetros de Currais Novos, como diria outro potiguar dedicado ao livros, José Xavier Cortez), tem seu corpo naquela capital sepultado desde 1986.

Cascudo deixou um livro de memórias, “O Tempo e Eu”, cuja primeira edição é de 1968 (ano simbólico!) e que saiu pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da qual ele foi professor e cujo Instituto de Antropologia tem seu nome. Obra sólida, marcada não pela nostalgia de “tempos perdidos” mas pela alegria dos “tempos vividos”.

Professor com orgulho, não perdia tempo quando alguém esquecia isso; bastante idoso, irritava-se mais e mais com quem o chamava de folclorista e, em uma entrevista foi direto: “Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou na pior das intenções, me chamam folclorista. Folclorista é a PQP. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando”.

Foi um gênio, inclusive no uso do tempo.

Porém, sua genialidade não era unânime dentro de casa. Teve uma cozinheira que trabalhou com ele mais de quarenta anos, pessoa boa e dedicada, que um dia foi abordada perto do fogão por uma visita de Cascudo (em lugar que dava para ver o professor no interior da biblioteca pessoal) e esta comentou “Mas esse homem é um gênio, né?”

A cozinheira disse, sem parar de mexer o pirão de queijo: “Acho não, moço. Faz décadas que estou aqui e vejo ele estudar todo dia por um tempão”…
(por Mario Sergio Cortella – filósofo, professor da PUC-SP).

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ARTE E JUNG

                                                          OBRA      DE      JUNG
A relativa inadaptação do artista significa para ele uma vantagem real, permite-lhe permanecer afastado da estrada principal, seguir seus próprios anseios e encontrar aquilo de que os outros, sem o saber, sentiam falta. Assim como no indivíduo a unilateralidade de sua atitude consciente é corrigida por reações inconscientes, a arte representa um processo de autorregulação espiritual na vida das épocas e das nações”. (C. G. Jung)

“O significado social da obra de arte é que ela trabalha continuamente na educação do espírito da época, pois traz à tona aquelas formas das quais a época mais necessita”.JUNG

“Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na esfera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade e com isto também solta em nós todas aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram à humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver a mais uma noite”.Jung,

 

domingo, 7 de julho de 2013

PEDAÇOS DE MIM

                                                                MONDRIAN

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

... pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

MIA COUTO

No livro "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

segunda-feira, 24 de junho de 2013

POEMA AULA DE DESENHO

 
                                                         RENÉ  MAGRITE

AULA DE DESENHO   
MARIA ESTHER MACIEL
   

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz. 
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra  minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida, 
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

domingo, 16 de junho de 2013

CORPO


POEMA DE AUTORIA DE TATIANA LEMOS
"Teu corpo acorda meu corpo:
Vem!
Eu na cabeça, tentando encontrar linguagem; ele, à frente, já construindo oração
A dobra do teu joelho evoca o meu joelho
Que puxa a coxa, resolve o coxo
Que convida barriga a encontrar seu lugar contra as costas
Que anima os braços a formarem o laço que
Prende
Aperta
Molda
A massa da vida
O teu pulso, eu ouço
A cabeça não acompanha
Lenta
Lesa
Insuficiente
A dança pertence a seu próprio compasso
E, de repente, eu
Surdo
Cego
Murmurante
E nunca tão perfeitamente
Vivo"