segunda-feira, 18 de março de 2013

SONHOS DE 2012

DO SEMINÁRIO DE SONHOS DE 2012, TIRADENTES, MG.

POEMA DE BORGES


Para uma versão do I Ching
JORGE LUIS BORGES
 
O porvir é tão irrevogável
como o rígido ontem.
Não há uma coisa
que não seja uma letra silenciosa
da eterna escrita indecifrável
cujo livro é o tempo.
Quem se afasta
de sua casa já retornou.
Nossa vida
é senda futura e percorrida.
Nada nos diz adeus. Nada nos deixa.
Não te rendas. O carcere é escuro,
a firme trama é de incessante ferro...
Mas de algum canto de seu encerro
pode haver um descuido, uma fenda.
O caminho é fatal como flecha
Mas nas gretas está Deus,
que espreita.

sexta-feira, 8 de março de 2013

OFÍCIO DE PASSARINHO



MANOEL DE BARROS

Desde sempre parece que ele fora preposto a pássaro.
Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade às nossas palavras era
a canção do ver!
Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.

 

sábado, 2 de março de 2013

VIDA SIMPLES


 
MANOEL DE BARROS
Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

ALMA SIMPLES

                                              JOHN MERRIT-FRANÇA-
MANOEL DE BARROS
 
Por forma que o dia era parado de poste.
Os homens passavam as horas sentados na
porta da Venda
de Seo Mané Quinhentos Réis
que tinha esse nome porque todas as coisas
que vendia
custavam o seu preço e mais quinhentos réis.
Seria qualquer coisa como a Caixa Dois dos
prefeitos.
O mato era atrás da Venda e servia também
para a gente desocupar.
Os cachorros não precisavam do mato para
desocupar
Nem as emas solteiras que despejavam correndo.
No arruado havia nove ranchos.
Araras cruzavam por cima dos ranchos
conversando em ararês.
Ninguém de nós sabia conversar em ararês.
Os maridos que não ficavam de prosa na porta
da Venda
Iam plantar mandioca
Ou fazer filhos nas patroas.
A vida era bem largada.
Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia
atravessar.
Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?
Por tudo isso, na Corruptela parecia nada
acontecer.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

TRILHA DA ALMA


TRILHA DA ALMA
ELIANA MIRANZI

CAMINHO BEM CEDO, NA MANHÃ CINZA,
QUE AINDA NÃO SE DECIDIU ENTRE SOL E CHUVA.
UM VENTO INSONSO, SEM MUITA OPINIÃO PRÓPRIA,
VISITA MEU ROSTO, BRINCA COM MEUS CABELOS,
DERRUBA FOLHAS E LEVANTA POEIRA.
A MARCHA É FIRME, EMBALADA PELO CANTO BRANDO
DO RIACHINHO QUE SEI QUE EXISTE ALÍ BEM PERTO,
E NO ENTANTO NUNCA O VÍ.
PASSARINHOS QUE NÃO MUDAM DE ASSUNTO,
REPETEM SEU RECADO MELÓDICO E ÚNICO.
OUTROS ENTRAM NO MEIO DA PROSA,
 COM HARMONIAS ESTRANGEIRAS E INESPERADAS.
O MUNDO DAS AVES....MUITO A NOS ENSINAR.
A CADA CAMINHO A SUA LIÇÃO, A CADA TRILHA, A SUA FUNÇÃO.
HOJE, CAMINHEI PARA NÃO PERDER A ALMA.
ONTEM, PODE TER SIDO POR TÊ-L ENCONTRADO.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A ALMA DO TEMPO


MANOEL DE BARROS
 
A de muito que na Corruptela onde a gente
vivia Não passava ninguém
Nem mascate muleiro
Nem anta batizada
Nem cachorro de bugre.
O dia demorava de uma lesma.
Até uma lacraia ondeante atravessava o dia
por primeiro do que o sol.
E essa lacraia ainda fazia uma estação de
recreio no circo das crianças
a fim de pular corda.
Lembrava a tartaruga de Creonte
que quando chegava na outra margem do rio
as águas já tinham até criado cabelo.
Por isso a gente pensava sempre que o dia
de hoje ainda era ontem.
A gente se acostumou de enxergar antigamentes.